Os Mistérios de Elêusis

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Um poema de Jonas Otávio Bilda

I – Preâmbulo da Primavera
II – Elegia de Hades
III – Reencontro de Ceres e Perséfone
IV – Revelação dos Mistérios 

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Os Mistérios de Elêusis

I – Preâmbulo da Primavera

 Vinde!
De lavoura o tempo e de bonança,
Dize, inda em tempo outro, diáfano oceânico poeta:
“De vindouros, aia és!”
Fronte viva, majestosa aliança
Vinde!
Traze ditosa Hora – corada que és
Cântico renovo das aves
Co’s gracejos tão belos
Co’s gotejos tão prósperos
E afaga Mãe inteira em calidez frutífera
Celebração dos pomos – urânio cortejo!
Sus, suave equinócio, vinde!
Divina Vênus de madeixas rica
Domadora da ponderação, encorajadora de furores,
Compadeceste dos pesares demétrios
Inda que domínios teus granjeaste afamar
E dos olimpianos empáfia destruir
Por mor de toda tua arte.
Ó de todas as estações prima
Eu ta invoco e convoco: Vem!
Traze um brilho.
Carrega, co’as níveas mãos, e enlaça
Vastos acres do adormecido ventre
Um a um, entrega em semeadura o penhor
Acaricia, gesto acalentador, a face do Mundo
E põe termo ao teu amor.
Quadra esta de tênue lembrança:
É vindouro e sacro o céreo plantio,
Lânguido eternal.
Mas teus aprendizes à relha e ceifa, ó excelsa,
É incerto e titubeante a mortal colheita,
Seara de paixões fugazes
Quantos ais cabem ao peito férreo da progênie deucaliônida!

II – Elegia de Hades

Dançam Graças! Vos invadem alegres afetos
E apaziguam mesmo do Bóreas irada tez
Convidam Zéfiro ao doce regozijo
Com o menear ondulante de teus vestidos
E dos brônzeos dedos o encaracolar
Envolvendo-lhes por encantos.
Amas que de Afrodite ungiram rósea face
De Perséfone, agora, celebram a vinda
Laço materno de divina estirpe,
Floresce, vez outra, a extensão verdejante
De todo denso globo
E povoa de mil fragrâncias aos ares
Do Pergo as águas vítreas,
Os viçosos bosques e campos arco-íris
Púrpuras flores violetas e cálidos lírios e coríntias açucenas,
Esta é, pois, de imperatriz donzela – Mimosa nigromante
Rememorada saudade de folgança distante.
Eia, brumais enigmas eleusinos!
Bem-aventurados sigam vossos seculares mistérios!
Chega o tempo do ressurgir e renovar,
Descansa o raio e o trovão à sestra de Jove
Clóris preside os hinos jônicos de Citera
E no frondoso melancólico paço do Orco
Sobre iguarias servidas, repousa os olhos à escarlate romã
Plutão, rei funesto, monarca sombrio,
Entoa suspiro, lamenta antigo opróbrio;
Posta à destra infernal,
Sustém vazio o trono de cérea majestade:
“Encanecida lumieira, sol de imolada noite,
Foste novamente incólume à superfície
E cá deixaste-me riqueza em lágrimas.
Ah! Fruto milagroso, do matrimônio protetor
Nesta vastidão de bolores e escuros templos,
Como haverias de germinar
Sob a cura do Senhor da Morte?
Oh, Cípria potestade, terrível sois,
Té’qui alçaste domínios – golpeia o forte peito,
Gélidas veias que ebuliram qual fontes agitadas
Não testemunharam vós
Os cândidos milagres de minha deusa?
Tu, rubro pomo coroado, também tocado não foste
E cresceste vigoroso, e cá estendeste teus ramos
Pelo sulcar e semear daquele clemente olhar?
Oh, duro seio! Oh, eterna condição!
Arrebata-me agora – Ah, como outro sou!
Os horrores da separação dos amantes,
E se outrora férreos gotejares
Ressoaram os hinos de Orfeu,
Cá batizaria, hoje, um regato, inda que sangrento,
Por prantos novos, de um novo coração.
Que o Tempo manejar pudesse
E aos rodopios, tua ceifa e báculo, tua falta abreviasse,
Perséfone, caucásica beladona mortal,
Perséfone, alva flor de mistérios,
Negra primavera, cintilante nostalgia”.

III – Reencontro de Ceres e Perséfone

 No abraço materno metida, em Telesterion,
Nume mui esperada, de odes todas recepcionada
Dentre helênico povo, aurora da humanidade,
Mil templos tendes, ó benevolente, em tua honra
Mas ajeitas, de alegria cora e chora, o quíton purpúreo
– linho de tua reluzente maviosa cura –
Ao quanto volves co’s formosos braços nus
Amada matrona, benevolente Ceres,
Pousa qual macia folha outonal o redondil queixo
Com ânimo manso, sobre o destro flanco materno.
Presilhas, par de brincos e gargantilha fulgurantes
Douravam inda mais a estelar beleza
– presentes edoneicos -,
Da fabulosa madona que
‘Té Vênus, por Adônis, se encoleriza.
“Oh, filha de minh’alma, benção de meu ventre,
Tornas à vida o broto esperanto,
E faze, de tua mãe, infinito carinho e imortal regaço,
Jovial retorno, formosa ressurreição.
Brando Hélio! Fausto Zeus! Não por vós,
Sonho melancólico e saudade infinda,
Em meus seios não aqui apertaria,
Em meu rosto não agora falaria.
Pudera, inda que todo Universo retumbasse,
E gigantes e monstros libertos por terra caminhassem,
Que não mais te apartaste de casa materna,
E ao jugo do abominável Hades,
Não mais tornásseis.
Oh! Condoam-vos, altíssimos, das inextinguíveis dores
Que inexprimíveis se agitam na imortal alma,
De uma saudosa deusa mãe”.

IV – Revelação dos Mistérios 

Em suavíssimo timbre, a que se julgara poder avivar as messes
Replica a mátria amargura, de sacra justiça dissonante,
Qual aos pais, mesmo mortais, comum falta se faça
Sem de Fúrias conceber penalidade,
Com firme ternura, altivez gloriosa,
Cresce em esplendor, a temível Prosérpina
Das sombras imperatriz,
Da primavera homônima:
“O sofrer teu, aos celestes comoção moveu,
Ó dulcíssima frondosa mãe.
Ouve, ó mais amada, pois é ser de teu ventre quem vos fala”.
Abranda, outrossim, de Deméter o lamento,
E toma-lhe a destra, rumo a escaleira
Ao frontão do templo eleusino,
Donde belíssima monarca de negros longos cabelos
Como fachos florescentes de noite virginal
Curvos acompanhantes de elegante busto
Em célebre radiância com os áureos halos da cútis imaculada,
Afável propõe-lha esplendorosa resolução:
“O rapto a que Eros destino me concedeu,
Só na tardança, no cimo do estígeo sofrimento,
É que com sabedoria nascente pude desvelar júbilo.
Ó celebrada e ilustre Ceres,
Ó senhora invicta de minhas infantes lembranças!
De Plutão gesto hostil perdão não me angariava,
‘Té que a face luminosa do eclipse a mim alumiou
E nunc’antes virgem com superior doçura e absoluta devoção
Ouviu-se tratamento apreciar de nume algum.
Oh, séculos vindouros, perscruta o vate que ora revelo
E não tomes por certo o incerto de vozerios afamados,
Nem segues trilha por demais seguida,
Cujas pegadas confundem-se com ardis lamacentos.
Eis a grandiosa verdade que, inspirada pelos Infernais Rios,
Abrasada pelo crescente e sereno amor
Que nutri por meu Hades,
Fora a mim presenteada pela melodia de Orfeu a sua Eurídice
Nos Elíseos Campos,
Banhados pelos prateados Erídano e Letes:

Oculta a vida se forma no ventre materno,
Sombrias as origens do Universo emergiram de Caos,
Encobertos trigo e milho glorificam o manto fértil co’a luz diáfana,
E imergidas ao Letes as almas reavivam o Mundo.
Vinde, ó mistérios sagrados!
Abençoem esta Terra com a verdade da ocultação,
Preparem as gerações de mortais à harmoniosa cultura,
Entoando os hinos de Elêusis à celebração dos dons etéreos,
À celebração da reunião do Céu e a Terra,
À homenagem do Amor,
À canção melíflua da ressurreição das estrelas.

Um agradecimento especial e com muito orgulho ao poeta Jonas Otávio Bilda por permitir a publicação desta obra-prima!

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